Tendência temporal dos indicadores de doação de órgãos e transplantes no Brasil entre 2015 e 2025
DOI:
https://doi.org/10.63845/v8730v24Resumo
Introdução e objetivo: A crescente prevalência de doenças crônicas, como diabetes, hipertensão e câncer, tem aumentado a demanda por transplantes de órgãos, muitas vezes a única opção terapêutica para condições graves.1 No Brasil, o Sistema Nacional de Transplantes (SNT) coordena um dos maiores programas públicos do mundo, com indicadores monitorados pelo Registro Brasileiro de Transplantes (RBT), cuja análise subsidia políticas de saúde.2,3 Assim, o estudo objetivou analisar a tendência temporal dos indicadores de doação de órgãos e transplantes no Brasil entre 2015 e 2025.
Método: Estudo ecológico de séries temporais com dados secundários do Registro Brasileiro de Transplantes (RBT), referentes ao período de 2015 a 2025. Foram analisados indicadores de doação de órgãos (potenciais, elegíveis e efetivos) e transplantes de órgãos, tecidos e células, padronizados por 100 mil habitantes, com base nas estimativas populacionais do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A taxa de efetivação foi calculada pela razão entre doadores efetivos e elegíveis ×100. A tendência temporal foi analisada por regressão Joinpoint, estimando-se a variação percentual anual (APC), a variação percentual anual média (AAPC) e os respectivos intervalos de confiança de 95% (IC95%), adotando-se p<0,05.
Resultados: Os potenciais doadores apresentaram tendência estável entre 2015 e 2020 (APC=2,20; IC95%: -1,85 a 3,90; p=0,210) e tendência de aumento significativa entre 2020 e 2025 (APC=6,85; IC95%: 5,32 a 10,57; p<0,001), com tendência global de crescimento no período total (AAPC=4,50; IC95%: 3,83 a 5,24; p<0,001). Os doadores elegíveis apresentaram tendência estável entre 2015 e 2021 (APC=1,58; IC95%: -6,67 a 12,96; p=0,704) e entre 2021 e 2025 (APC=5,42; IC95%: -3,46 a 14,79; p=0,092), com tendência global de crescimento (AAPC=3,10; IC95%: 1,35 a 5,09; p<0,001). Os doadores efetivos mostraram estabilidade entre 2015 e 2022 (APC=0,89; IC95%: -9,42 a 17,79; p=0,996) e tendência de aumento entre 2022 e 2025 (APC=6,70; IC95%: -6,19 a 19,48; p=0,115), com crescimento significativo no período total (AAPC=2,60; IC95%: 0,06 a 5,29; p=0,044). A taxa de transplantes manteve-se estável entre 2015 e 2020 (APC=-1,58; IC95%: -12,73 a 10,03; p=0,408) e entre 2020 e 2025 (APC=4,29; IC95%: -5,64 a 17,20; p=0,133), sem variação significativa no período total (AAPC=1,31; IC95%: -0,93 a 3,78; p=0,257). No período analisado, os órgãos mais transplantados foram córnea (25,52%), medula óssea (25,52%), rim (18,52%) e fígado (7,06%).
Conclusão: Os indicadores de doação de órgãos cresceram no Brasil entre 2015 e 2025, com aceleração no período pós-pandêmico. Contudo, a estabilidade das taxas de transplantes evidencia descompasso entre a identificação de doadores e a realização dos procedimentos, reforçando a necessidade de qualificar as equipes, ampliar o consentimento familiar e expandir a capacidade transplantadora.
Referências
SOUZA, M. C. et al. Gestão de transplantes no Brasil: uma análise temporal de investimentos financeiros e procedimentos. Revista da Escola de Enfermagem da USP, São Paulo, v. 58, e20240039, 2024.
BRASIL. Ministério da Saúde. Sistema Nacional de Transplantes (SNT). Brasília, DF: Ministério da Saúde, [2026]. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/composicao/saes/snt. Acesso em: 30 jun. 2026.
ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE TRANSPLANTE DE ÓRGÃOS (ABTO). Registro Brasileiro de Transplantes. São Paulo: ABTO, 2025. Disponível em: https://site.abto.org.br/. Acesso em: 1 jul. 2026.
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